Peek-a-boo

Postado em 6/10/2015 | 0 comentários


Peekaboo

Aconteceu denovo. Eu sei que voce acha que eu estou completamente louca. Mas é assim que funciona. Todo mundo some.

Como assim Laura?

Some. Some. Desaparece. E eu estou sozinha. Aí o unico jeito de trazer todo mundo de volta é fazer algo estranho.

Estranho? Como assim ?

Qualquer coisa socialmente inaceitável.

E o que você acha socialmente inaceitavel?

Bom no começo eu gritava…

E isso trazia as pessoas de volta?

Sim na mesma hora.

E quando isso começou ? Das pessoas sumirem…

Não lembro. Eu achava que era assim pra todo mundo na verdade…

E quantas vezes por dia as pessoas somem?

Várias. Na verdade eu fico sozinha a maior parte do tempo.

A sala da psicologa tinha um cheiro estranho. Incenso talvez? Eca só faltava ser uma daquelas psicologas new age, ia me receitar florais? Do in? Alguma outra baboseira? Será que dá pra desligar o Enya sem ela voltar ?

Click

Laura? Voce está me escutando? Se voce queria baixar a musica era só pedir.

Você sumiu.

A psicologa suspirou fundo. E Laura já sabia o que ia acontecer. Ia mandar ela pro psiquiatra, que por vez ia mandar fazer um encéfalograma, ressonancia, e receitar ums calmantes, o que não ia mudar nada. Nunca mudou.

Certo Laura, podemos mudar de assunto. Sua mãe disse que voce não fala mais com ela.

Ela sumiu pra valer. Eu não consigo trazer ela de volta.

Você que dizer que não está vendo sua mãe aqui do lado?

Ahn ela esta aí? Oi Mãe. Desculpa.

A psicologa arregalou os olhos. E correu pra amparar o nada. Laura estende os dedos e alcança o volume que preenche os braços da psicologa. Nada. Uma mímica perfeita. A magoa da mãe não era menor por ela estar invisivel entre os braços da psicóloga.

Eu vou embora. Muito obrigada.

Laura abriu a porta e saiu. A rua vazia. Apertou o passo pra fugir do desgosto e troubou na parede invisivel.

Olha por anda!

A rua estava cheia, Laura desviou e continuou pisando forte. Entrou no prédio cinzento com o porteiro felizmente a vista.

Bom dia!

Silencio de resposta, elevador, e cadeira. Liga o computador. O que tem pra fazer? Abre planilha cola o valor, roda a macro, alinha, ok. Abre o banco, seleciona.

Laura?

Oi.

O rapaz de sapatênis perguntou algo, e Laura repondeu, a conversa seguiu por algums minutos e morreu. E Laura estava sozinha novamente.

Trabalhar era facil, ela ficava em sua cadeira, respondia caso alguem aparecesse, e ficava normalmente sozinha quase 90% do tempo. Socialmente aceitável, ali era bem fácil. E ela tinha aprendido do pior jeito que conforme ela fazia as tais coisas inaceitaveis, as pessoas iam se acostumando, na ultima firma ela tinha começado mostrando a lingua pras pessoas, o que funcionou por um tempo, mesmo sendo algo bem bobo, e então caretas, que duraram menos , os gritos não duraram quase nada e finalmente não deixaram ela entrar no prédio. Todo especialista que tentava diagnosticar Laura não durava tempo o suficiente e conforme ele entendia o que Laura relatava ele desparecia também. A Mãe era o pior. Ela tinha visto de tudo coitada, os gritos, os cortes, os ataques e o choro. Laura tinha alguma ideias do que fazer caso quisesse vê-la denovo, mas era coisas horriveis demais, e a coitada não merecia passar por mais isso. Não seria egoismo dela? Afinal as pessoas aparentemente a viam normalmente. Era só Laura “a louca” que não via ninguem. Decidiu seguir fazendo o que fazia. Agindo normalmente. Nunca perturbando o equilibrio da normalidade. Ainda era melhor do que acabar internada. Onde nenhum enfermeiro estranharia qualquer coisa que ela fizesse.

Sozinha. Sempre sozinha

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