O RITUAL SOMBRIO

Postado em 5/06/2014 | 1 comentário


O RITUAL SOMBRIO

Parte 1

Nunca pensei que um dia ela me deixaria ir, nunca pensei que ela se importasse…

Talvez estivesse entediada e quisesse tentar algo novo, me caçar mais tarde quem sabe.

Não… Acho que ela não esperava que eu conseguisse o que ela não conseguiu. A última página do seu livro de magias, que eu lia escondida. Tentou sua vida inteira conjurar aquele feitiço, mas fui em quem consegui. Espero que ela tenha morrido com o impacto… teria sido bom demais… Eu mesma fui arremessada pra fora da casa violentamente, estava sangrando mas não parecia que tinha quebrado nada.

Na hora não conseguia pensar em nada, nem sentir dor. Só o que podia fazer é correr, pro mais longe possível. Não sabia bem pra onde… Tudo que conhecia era aquele lugar sombrio à beira daquele rio raivoso. A cabana parecia escondida de tudo, envolta por montanhas. Só havia uma outra única saída além do rio, um caminho pela caverna que ia dar no cemitério nos fundos da “Catedral”. Era lá que coletávamos materiais para suas magias sombrias, mas nunca entrei na Catedral. Parecia que sombras nos espiavam dos vitrais, isso me dava um frio nas costas que subia pelo pescoço, minhas pernas ficavam moles. Tudo que eu queria é pegar o que fosse necessário e sair dali o mais rápido possível. Mas naquele dia, eu tinha de entrar, não tinha outra saída dali.

Eu corri sem parar, através da caverna, pelo cemitério. Vi a construção, apoiada na montanha pelos dois lados. Não olhei pros vitrais, procurei os desenhos nas paredes, feitos por ela, mas eles não estavam lá. Era uma de suas magias pra nos proteger, ela dizia. Ignorei os conselhos que a bruxa me fez jurar de nunca entrar lá e corri até a entrada.

Desci um pequeno lance de escadas até a porta, estava destrancada, entrei e corri em linha reta olhando para o chão. Estava com muito medo, parecia que havia pessoas em volta. Me desesperei, corri mais rápido até me deparar com um altar. Havia uma menina deitada, preza, amordaçada e sem roupa. Devia ter a minha idade, 18…

Foi nessa hora que criei coragem e olhei em volta.

ΩΩΩ

Algo de muito ruim estava acontecendo ali, parecia um ritual. Pessoas cercando o altar, encapuzadas, suas mãos seguravam cabeças de bode, recém decapitadas ainda escorrendo sangue. Símbolos por toda a parte, parecidos com o que “ela” fazia. A menina na mesa tinha símbolos pelo corpo também, mas pareciam queimaduras. Um bode em corpo de homem segurava um punhal e estava olhando para mim. Ele me segurou pelo pescoço e me puxou pra perto de seu livro de magias, gritando algo que parecia a língua do livro “dela”. – Aprendi com você. Uma das poucas coisas que lembro, antes de tudo acontecer…

Eu estava muito assustada, mas acho que ele disse: “Mais uma…” – O resto não lembro.

Os outros assentiram. Ele começou a gritar e os outros repetiam a mesma coisa. Eu não conseguia prestar atenção no que ele falava, olhei para a menina no altar. Ela estava aterrorizada olhando pra mim, como se pedisse ajuda.

Um outro encapuzado se aproximou da fogueira e colocou um símbolo feito de ferro para aquecer na brasa. O símbolo parecia com as queimaduras no corpo da garota no altar.

Sabia que era para mim, olhei em volta e eu vi um livro sobre o pedestal em frente ao altar.

Não acreditei, como isso pode acontecer? Como o “livro” dela foi parar ali? O medo me deixou e o ódio tomou conta de mim. Um cântico sombrio se iniciou, as sombras dançavam hipnoticamente à luz da fogueira.

Avistei os rostos dos “outros” nas sombras dos cultistas. Elas estavam sorrindo de olhos bem abertos, famintos, diretamente pra mim. Fraquejei. Nessa hora o homem-bode virou com força a minha cabeça um pouco pro lado para que eu olhasse para a menina no altar. Urros sincronizados iniciaram a medida que a faca se aproximava da menina que agora conhecia o terror.

Ele terminou de conjurar o feitiço e a faca tocou-a bem abaixo do umbigo. As sombras urraram e se desprenderam de seus criadores. A grande porta de saída gemeu e sumiu na escuridão, não havia saída. Segurei o pingente preso ao meu colar, um símbolo de proteção que a bruxa fez pra mim e gritei com o ódio chegando ao meu limite.

Impius! Tu non habet potestatem in me.– Ordenei, “Ímpios! Vocês não tem poder sobre mim”, completando o feitiço.

O Homem-bode soltou meu pescoço, ficou paralisado. Segurei sua lâmina com as mãos, que cortou-a e a fez sangrar. Peguei o sangue com a outra mão, me abaixei e fiz um círculo em volta de mim com um símbolo de proteção, que aprendi com “ela”. Parece que alguma coisa de bom “ela” me ensinou.

Ego præcipio tibi. Tolle cunctos quod tuum est et vade.– Gritei, ordenando que pegassem o que era deles e saíssem.

Os “outros” erram arrastados de volta às sombras, mas eles não queriam voltar. Se seguraram nos cultistas os rasgando-os em pedaços. Eu voltei a mim e me peguei tremendo de medo. Minha coragem vinha do ódio, que naquele momento havia sumido.

O homem bode continuava paralisado. Senti um respingo quente tocar meu rosto. Veio do peito do homem-bode, uma mão atravessou seu corpo arrancando seu coração. A cabeça de bode caiu, revelando o rosto do homem. Seu corpo ficou pendurado no que parecia um braço bem longo e sombrio.  Eu tremi quando avistei o resto de seu corpo. Era uma sombra sem rosto, com chifres e olhos vermelhos e brilhantes como uma brasa quente. Uma voz sombria me disse algo na língua do livro: “Agora é tarde”. Mas eu sabia que seja o que fosse aquele ritual, eu havia interrompido. Apenas aquela “coisa chifruda” se esforçava para não ser sugada de volta às sombras. Ela pegou a adaga do chão e cravou no peito da menina sobre o altar. Pronunciava algo que eu não entendi, mas já era tarde, o portal nas sombras se fechou. Era tarde demais para os “outros”, mas não para ela. Com o sacrifício a coisa pode ficar. Instintivamente, peguei o livro e corri de volta por onde entrei. Por alguns instantes, a bruxa já não parecia algo tão ruim assim comparado aquilo.

Passei pela porta e torci a mão ferida pra que derrubasse mais sangue. Fiz vários símbolos, iguais o que ela fez. Para que a coisa ficasse presa. Não era necessário fazer em um local especifico, bastava fazê-los em qualquer parte da construção para torna-la um prisão. Mais um ensinamento da bruxa. Andei vagarosamente em direção à caverna, olhando fixamente para os vitrais. Avistei a menina, estava de pé, mas não parecia viva, lagrimas de sangue escorriam de seus olhos. Ela gritava de ódio. “Deixe-nos sair!”

Me virei assustada e corri pelo cemitério de volta a caverna. Eu até esperava encontrar a bruxa, sentiria um alivio se isso acontecesse. Por mais que ela me tratasse mal, me obrigasse a ajuda-la com seus feitiços, me aprisionasse na cabana e em geral tornasse minha vida miserável, nada se comparava à o que havia naquela catedral. Talvez esse fosse seu plano, me deixar ir até lá, ver com os meus olhos e voltar com o rabo entre as pernas.

Ao me aproximar da cabana fiquei mais tranquila, de alguma forma a bruxa era algo menos assustador que as aberrações…

ΩΩΩ 

Abri o livro em uma página com um feitiço de proteção. Tudo nesse livro tem um custo, às vezes alto demais. Eu já tinha perdido um monte de sangue, o que era mais um pouco para me proteger? Pintei meu rosto com um símbolo descrito neste capítulo do livro. Fiz o mesmo com meu peito, braços e pernas. Depois precisei de um animal para sacrificar. Usei uma galinha perto da cabana. Sombras envolveram meu corpo, mas não podiam me tocar.

Ao entrar na casa, não encontrei ela, mas um homem. Ao me avistar ele ficou pálido e começou a tremer. Em um piscar de olhos ele saiu pela porta e correu até uma jangada amarrada à beira do rio. Ela era presa à uma corda que ligava um lado do rio ao outro, o homem puxava a corda que fazia com que ele avançasse à outra margem do rio. A fumaça negra em meu corpo me deixou e começou a ir em direção à jangada.  O homem chegou ao outro lado e cortou a corda, para que eu não o seguisse. Ele avistou a sombra indo em sua direção e correu à margem, contrário à corrente, depois sumiu na mata.

Eu esperei por dias, ele nunca voltou. Nem a bruxa, nem a sombra. Li bastante o livro e cuidei da casa, da horta e dos animais, alguns porcos e galinhas.

Após alguns dias sem chover, percebi que devia voltar à catedral, antes que chovesse. Fiz um preparado de uma tinta e misturei mais um pouco de meu sangue e de uma outra galinha. Pela careta que você fez, não preciso contar mais detalhes.

Voltei lá, mas desta vez me preparei, apesar do frio na barriga, segui firme pelo cemitério. Minha firmeza balançou ao avistar os vitrais, Ela estava me olhando de lá. Era como se nada tivesse mudado desde que fugi.  A menina gritava, deixe-nos sair e seu fim será rápido. Urrava e olhava para mim.

Senti o frio na barriga aumentando, mas sacudi a cabeça e disse: “Seres impuros, ficarão presos aí enquanto eu estiver viva.” E pintei os símbolos nas paredes ao lado dos que tinha feito com sangue anteriormente.

Os urros ficaram mais fortes e pararam quando eu pintei um símbolo que conjurava um feitiço de silencio. Olhei para ela sorri e disse: “Calada!” Naquela hora fiquei orgulhosa de mim mesma. Só então percebi que tinha derrotado a bruxa, aprisionado estas aberrações e tinha uma casa. Só precisava vencer meu medo do rio e estaria livre pra sair dali. Pela catedral é que não ia dar mais.

Essa minha coragem toda desapareceu ao som da primeira trovoada anunciando a chuva. O rio encheu subitamente. Havia uma escada de uns 3 metros que levava até o rio, percebi durante a noite que era isso que impedia o rio de arrastar a cabana, naquele dia não dormi nada. Fiquei com medo do rio depois do acidente.  Na manhã seguinte a chuva diminuiu e o rio também, aos poucos. Perto da noite já havia voltado ao seu estado normal. Verifiquei tudo, a casa a horta, e as criações. Parece que a casa estava acostumada às chuvas e até mesmo as casinhas dos animais eram resistentes.

Ao voltar à casa percebi que havia uma visita.

ΩΩΩ 

A menina tímida, cansada, com frio e toda ensopada pela chuva, parecia feliz por encontrar alguém. Tinha cabelos compridos e bem cuidados, a roupa estava toda rasgada. Preparei um banho quente enquanto a sopa de legumes e carne de galinha ficava pronta. Ela devia estar sem comer a um bom tempo, estava faminta. Depois preparei uma cama pra ela. A menina não falava quase nada, acenava com a cabeça a maior parte do tempo. No dia seguinte tentei conversar com ela quando estávamos na horta colhendo frutas para o desjejum da manhã. Com o rosto murchando de tristeza, ela me disse: “Não tenho mais nada! Um homem matou minha mãe, roubou nosso cavalo e jogou a carruagem comigo dentro no rio”. E começou a chorar. Abracei ela, sem saber muito o que fazer, não toquei mais no assunto.

Por um tempo, ela chorou a morte da mãe e eu não me intrometi. Pra ocupar a mente dela, pedi que me ajudasse com os animais de vez em quando, ela parecia gostar. Um dia ela me disse pra sairmos daquele lugar, eu disse que não havia jeito, pois nossas únicas opções eram esse rio gigante e a “Catedral”. Ela disse que não sabia nadar, e me perguntou se eu podia ensinar ela pra que pudéssemos atravessar. Perguntei a ela como chegou aqui e me disse que se agarrou numa tábua solta e desceu rio abaixo até quase morrer de frio e sentir o pé encostar no chão aqui em frente. Disse a ela que eu não podia, tinha muito medo do rio. Ela gargalhou caçoando de mim. Eu me irritei muito… “Ele levou minha mãe quando eu tinha a sua idade, ela morreu pra me salvar”. Me dei conta que essa foi a primeira vez que pensei sobre o assunto desde o dia que fugi da bruxa.

Ela ficou envergonhada, começou a chorar me pedindo desculpas e me abraçou. Por horas ficamos em silêncio completando nossos afazeres. No jantar ela voltou com o assunto de sairmos dali. Desta vez pela “Catedral”. Contei à ela que aquele lugar aconteciam coisas ruins e que “monstros” viviam lá. Ela continuou insistindo, que não tinha medo de monstros. Eu disse que amanhã precisava ir até lá “retocar” o encantamento e a levaria, então me perguntou se eu sabia magia. Eu não tinha contado pra ela sobre esse meu lado. Ela queria saber de tudo, e eu não queria comentar sobre o assunto. Ela me encheu tanto que eu tive de obriga-la à ir pro quarto.

No dia seguinte mudei de ideia. Era muito perigoso pra ela ir junto, lembro da primeira vez que vi a catedral, estava “vendo com as mãos” as runas na parede e dei de cara com uma aberração me observando pelo vitral de dentro da catedral. Fiquei a semana inteira sujando a cama e a bruxa me xingando.

Com o passar do tempo a menina não entendia que era pro bem dela. Me irritava muito e eu colocava ela de castigo… Mas um dia me cansei, disse que podia vir junto da próxima vez mas que ia demorar, isso talvez fizesse com que desistisse da ideia. Mas ela era jovem e queria sair desse lugar. Eu não a culpei, também gostaria de sair de lá.

Alguns meses depois eu precisava voltar a catedral e concordei que fosse. Mas eu me preparei para não deixa-la assustada, levei até material extra para qualquer eventualidade. Estávamos nos aprontando para ir, ela foi até meu quarto buscar uma coisa para mim e acabou reconhecendo uma bandana que o antigo morador usava. Ela correu em direção à Catedral, parecia atormentada. Na hora não entendi o que estava acontecendo, mas tinha de correr atrás dela. Não sei o que aconteceria se eu não chegasse à tempo.

No caminho encontrei a bandana e lembrei o que ela me disse algum tempo atrás. O homem que afugentei sem querer da casa, matou a mãe dela… Minha culpa, não sabia se ela iria me perdoar se soubesse. Fiquei muito triste mas não podia pensar nisso naquela hora, apressei o passo, mas ela corria muito. Quando sai da caverna e cheguei ao cemitério avistei ela trocando sinais com a outra menina pelo vitral da catedral. A possuída sinalizava pra ela abrir a porta. Me desesperei e comecei a gritar enquanto ela se dirigia à porta. Não deu tempo.

ΩΩΩ

A possuída parecia amistosa saindo pela porta e sorrindo pra mim. Virou-se e disse pra menina: “Entre, pode fugir! Eu seguro a vagabunda!”

Gritei em vão pra que ela não entrasse. Eu fiquei com muita raiva, estava preparada pra enfrenta-los se algum dia escapassem. Hoje era o dia. Não podia perder tempo, conjurei um feitiço de paralisia na possuída e corri para a porta da catedral.

O vulto negro saiu da escuridão de dentro da catedral. A sombra tornou-se humana quando o primeiro raio solar tocou seu rosto. Era uma mulher linda e de corpo invejável. O cabelo longo e dourado era a única coisa que cobria seu corpo nu. Seus olhos eram a própria escuridão. Ela disse pra mim com uma voz sombria: “Finalmente recuperei meu corpo e força, graças à você!” E sorriu.

- O que é você? Porque está fazendo isso? – Perguntei.

- Não interessa, você vai morrer agora, não tão agora, devagar.

Retirei o símbolo de proteção que eu havia encantado já à algum tempo. Apontei pra ela e comecei a conjurar o feitiço de exilio, que deveria manda-la de volta pra escuridão. Uma fumaça negra emergiu do chão e a terra se partiu num estrondo ensurdecedor. A fumaça envolveu seu corpo e fez força para puxa-la para as sombras na fenda do buraco, sem sucesso. Pelo menos serviu para segura-la.

- Já que não me diz seu nome, vou te chamar de Chifruda! – Ela riu, mas foi o melhor xingamento que consegui pensar.

Sabe o que fiz com ela? – A Chifruda me perguntou sorrindo. – Torci seu pescocinho, deve estar agonizando. A possuída começou a gargalhar. Me desesperei e corri até a catedral para conferir.

Entrei em estado de choque ao ver a menininha caída no chão. Ela já não respirava mais, sua cabeça estava virada para as costas, de olhos abertos, como se olhasse para mim.

Voltei pra fora e com muito ódio daquela coisa eu comecei a usar todas os feitiços que encontrei no livro e joguei nela. Nada surtia efeito e a cada feitiço, seu sorriso aumentava e a força do feitiço diminuía.

- Não posso morrer! – Caçoou.

Elas estavam prestes a escapar e com certeza eu não ia poder fazer nada… Estava ficando desesperada. Então comecei a ler uma parte do livro que não gostava. Ele descreve coisas que me fazem querer vomitar e ficar sem dormir à noite. Mesmo a bruxa, evitava ler o livro todo, deixava até ela aterrorizada e era o suficiente pra me deixar preocupada também. Ela me ensinou o que eu podia ver, as primeiras páginas. Mas naquele dia eu precisava de mais que feitiços com símbolos.

ΩΩΩ

Me concentrei em ler somente o título. Muitos de tortura e muitos em uma língua que eu não entendia, nada parecia servir.

- Vou te cortar ao meio, te rasgar pelas pernas! – Disse a Chifruda calmamente, sorrindo para mim.

Eu já estava meio atordoada e me peguei falando algo que aprendi com você.

- “Invoco nomen tuum, Domine. Tuere me ab omnibus malis.” – Me trouxe conforto.

Quando voltei meus olhos para o livro notei que havia parado em uma página com um desenho de um vulto negro com cifres longos, parecia ela em sua antiga forma. Estava na língua que não entendo, mas parece que alguém “traduziu” pro latim, rabiscando ao lado de cada palavra. Havia um aviso no início da página.

- “Curam habe animæ tuæ.” – Dizia pra eu cuidar da minha alma. Não me deixei abalar.

Fui até a possuída, ainda paralisada, cortei seu pulso e deixei o sangue escorrer. Senti nojo mas deixei algumas gotas caírem entre meus dedos e com muito nojo coloquei na boca. Cortei levemente a palma da minha mão esquerda e utilizei nosso sangue combinado para conjurar outro feitiço. Me aproximei da outra, a mulher, e conjurei a primeira parte do ritual. Senti minha boca seca, aproximei-a da boca dela e puxei o ar como se fosse agua. O sangue dela começou a sair da boca dela para a minha. Nunca senti tanto nojo.

Mas parou logo que me senti tonta, com muita dor de barriga. Meu coração parecia ter vida própria, tentando saltar pela garganta. Essa foi a primeira parte do ritual, o corrompimento do puro.

- Pare! Ou vou te torturar por toda a eternidade! Vadia imunda! – Ela parecia com muito ódio de mim.

- Ficou nervosinha Chifruda? Achei que você fosse algo mais poderoso, mas é só uma vagabunda barulhenta. – Quase me sujei falando isso, nem pude acreditar no que tinha acabado de dizer, minha perna ficou bamba. Na verdade nem sabia o que era uma vagabunda exatamente, mas ela falava tanto, deve ser algo ruim pois ela urrava de raiva.

Apontei o símbolo para a possuída e conjurei a segunda parte do ritual, o sacrifício do impuro. A possuída gritava ao ser sugada aos poucos pelo símbolo. Primeiro sangue, depois carne e por fim até os ossos.

Algo de errado acontecia comigo, eu comecei a ter lampejos de acontecimentos ruins. Pessoas sofrendo, parecia que eu estava fazendo-as sofrer. Algo a ver com o sangue dela, talvez suas próprias visões.

A chifruda estava conjurando algo, em uma língua que não conheço. Eu já tinha o que precisava para a última parte do ritual. Profanação dos mortos. O próprio símbolo que utilizava era feito de ossos humanos. Ergui e apontei para ela e conjurei, mesmo sem saber o significado:

- “Barra! Barra bau! Barra lilit! “

Meus pulmões se encheram com todo o ar que consegui aspirar e soprei o símbolo com toda a força que consegui. O fogo negro saiu do símbolo urrando. A mulher gritava estridentemente de dor, o fogo parecia corroer sua carne rapidamente.

- “Edin Na Zu!” – Seu corpo queimava com chama negra e uma fumaça negra surgiu das sombras nas fendas do solo e começou a puxa-la. Ela resistia, gritava e parecia conjurar algo.

Como um trovão, seu grito estridente ecoou na noite sem estrelas, libertando-a e fazendo com que voltasse a sua antiga forma sombria. Mas ao invés de me atacar ela fugiu, para a catedral.

Eu sabia que ela estava com medo de mim, então a segui.

ΩΩΩ

Estava muito frio e um cheiro da podridão impregnava até a minha boca. O nojo quase me fez vomitar pela segunda vez. Eu cuspi no chão e isso me trouxe um certo alivio. Conjurei um feitiço de luz em outro símbolo que havia preparado anteriormente. Ele acendeu como um lampião e pude avistar o que causava o cheiro forte, restos putrefatos dos cultistas espalhados pelo chão. Avistei a porta que havia sumido da outra vez que estive aqui, estava entreaberta. Avancei pelo salão e à ultrapassei, chegando ao que parecia o hall de entrada, onde havia uma portão que ia até o teto da catedral. Estava fechado, então olhei em volta e vi uma pequena escada em espiral que levava a área inferior da catedral, hesitei por um momento, mas tinha de acabar com isso agora. Desci diligentemente a escada e avistei um longo corredor com símbolos nas paredes. Eu reconheci algum deles, mas não eram de proteção. Eles eram para facilitar a passagem dos mortos, mas havia símbolos por cima deles, cancelando-os. Talvez tenha a ver com o que os cultistas estavam fazendo, mas seja o que for, já havia acontecido. Segui rapidamente pelo corredor, iluminado somente por meu artefato.

Cheguei à um salão onde haviam muitos símbolos e o que pareciam gavetas que iam do chão ao teto, provavelmente guardavam mortos ali, um cemitério debaixo da terra. Ao fundo avistei uma escadaria enorme, não dava pra ver onde iria parar. Desci por alguns minutos até chegar à uma sala, ao fundo tinha o que parecia um altar. Ela estava lá de costas para mim, olhando para o símbolo na parede. Isso iria facilitar meu trabalho.

- “Barra! Barra bau! Barra lilit! “–Conjurei novamente, apontando o símbolo para ela. Enchi meus pulmões com ar e soprei o símbolo novamente. A aberração desviou-se e a bola de fogo negro atingiu o símbolo na parede. Me dei conta que ela só não fez isso dá outra vez pois estava paralisada.

O símbolo na parede rachou e abriu um tipo de portal, era isso que ela estava conjurando, me usou para conseguir abri-lo. Ela entrou rapidamente, mancando, parece que não conseguiu se desviar por completo, sua perna estava em chamas. Arremessei o símbolo de ossos em sua direção e conjurei outro feitiço. O som ensurdecedor selou o portal, nada passaria de volta e com sorte a explosão daria um fim nela.

Minhas pernas fraquejaram, avancei até o altar e sentei. Apaguei de exaustão.

ΩΩΩ

Durante o sono tive uma lembrança muito antiga, com você. Nós estávamos campo, o dia estava ensolarado, havia um homem falando alto, mesmo assim não consegui entender o que ele dizia. Devia ser um feiticeiro pois acho que ele conjurou alguma coisa, um lampejo me cegou e eu acordei do sonho. Estava muito frio e escuro. Estendi meu braço com dificuldade. Estava difícil mexer os dedos, senti arrepios, vulto de pessoas estavam à minha volta. Na hora eu estava confusa e havia esquecido que a menina havia morrido. Eu só pensava em protegê-la. Conjurei o feitiço da última página, aquele que usei pra fugir da bruxa, de tanto ler eu decorei, e o próprio livro era o artefato necessário para conjurar o feitiço e estava comigo, meu vestido tinha um compartimento especialmente pra ele. Estava muito confusa, sentindo arrepios e a voz saia lentamente da minha boa. Coloquei a mão nele, terminei a última frase do feitiço e peguei no sono pensando na menina.

Acordei na minha cama quentinha, ainda era noite. Corri até o quarto da menina. Ela estava lá. Sorri e abracei ela que acordou e me perguntou o que aconteceu. Perguntei que dia era… “Você bebeu aquilo de novo?” ela se referia a bebida do barriu que havia no quarto debaixo da casa, fiquei zonza quando bebi e bem ruim no dia. “Espero que amanhã não esteja doente, você prometeu que vamos lá na catedral”. Deixei o quarto. – Foi tudo um pesadelo, ou talvez um presságio. – Pensei.

No dia seguinte ela quebrou o barril de raiva quando soube que não iria junto pois eu havia mudado de idéia. Resolvi não contar o que aconteceu, afinal podia tudo ter sido um pesadelo daqueles. Nem me passou pela cabeça conferir se o tal feitiço existia. Me arrumei rapidamente e sai.

Chegando lá avistei a possuída me aproximei pra dar uma retocada no encantamento, os símbolos. Naquela hora tive a certeza de que foi tudo um pesadelo.

Quando cheguei perto notei que ela me olhava com ódio. Ignorei ela, retoquei os símbolos e sai rapidamente. Não sei até quando iria fazer aquilo, pensando bem… um dia elas realmente iriam escapar. Tinha de procurar ajuda…. Resolvi voltar. Ao entrar no cemitério percebi que havia alguém ali e estava me observando.

 ΩΩΩ

A menina estava atrás de uma lápide com um símbolo profano. “Isso não é lugar pra ela.” – Pensei. Então briguei com ela e apontei para o vitral e disse: “Aquilo não é uma menina, é uma aberração e vai quebrar o seu pescoço na primeira oportunidade. Vai mentir pra você pra deixa-la escapar.” A menina voltou pela caverna, chorando. Achei que ela tinha aprendido a lição. Era pro bem dela.

Voltei pra casa e resolvi ensina-la a se defender, feitiços básicos e runas de proteção. Isso à acalmou por um tempo. Mas parece que tudo o que eu fazia a irritava. Lembrei da bandana, com tudo que aconteceu eu havia me esquecido. Não podia deixa-la encontrar, se é que aquilo existia. Fui até o quarto e encontrei, não foi um pesadelo. Eu realmente tive algo a ver com a morte da mãe dela, não pode ser. Chorei muito, o dia todo, fechada no meu quarto. No jantar ela percebeu que meus olhos estavam inchados e perguntou o que havia acontecido, com cara de preocupação. Pobrezinha, se importava comigo sem saber do que aconteceu. Precisava contar pra ela, mas não até derrotar as aberrações.

Nos dias seguintes encontrei uma conexão entre os feitiços. Todos pareciam necessitar de algum tipo de sacrifício, ou sangue, ou os dois. Comecei a inventar os meus próprios feitiços. Se tudo que aconteceu naquela noite não foi um pesadelo, só podia ser um presságio. Então me forcei a ler o livro nas partes “proibidas”, o feitiço estava lá. Fiquei em dúvida se era tudo um presságio mesmo, mas não entendi como não seria, de qualquer forma, resolvi agir rápido. Pedi a menina um pouco de seu sangue e combinei com o meu. Uma virgem impura, depois que tudo que já conjurei, sacrifiquei, com certeza era eu. E uma virgem de puro coração, a menina ainda não tinha feito nada de errado, pelo menos sob os meus cuidados. Precisava também do sangue de alguma criatura profana. Eu teria de improvisar quando fosse enfrentar a chifruda, iria ter de usar a possuída. Além de tudo tinha os “vultos negros”. Planejava enfrentar todos no dia seguinte.

A menina estava muito irritada com toda a história e o sangue foi a gota d’água. Ela achava que eu ia usa-la em algum sacrifício. Então algo que eu nunca poderia prever aconteceu.

ΩΩΩ

A menina estava muito irritada com a história do sangue, estava segurando o livro. Tentava conjurar o feitiço que usei para escapar da bruxa. Eu percebi então o que estava acontecendo… Nós duas somos a mesma pessoa.

Ela não conseguiu conjurar o feitiço porque não ensinei a ela sobre o padrão entre as palavras, sobre as letras diferentes e principalmente sobre o sotaque. Eu mesma só aprendi por que vi a bruxa tentar várias vezes em vários sotaques diferentes.

Eu levei ela até a beira do rio, meu medo dele havia diminuído, agora conseguia me aproximar. Tive a confirmação ao olhar o meu reflexo na agua. Eu era uma versão mais velha da menina.

Eu era a bruxa todo esse tempo, achei que estava ajudando a menina… mas a lembrança que tinha era de que a bruxa não deixava eu fazer nada, me obrigava a ajudá-la a fazer coisas, principalmente com os feitiços. Ela devia ver tudo de outra forma… será? Mas havia uma única coisa diferente, o jeito que ela me travava, muito mais ríspida. E eu escapei bem mais nova, o que aconteceu de diferente? O que era aquele feitiço? Será que a bruxa… eu… não sabia mesmo conjurar?

Eu não podia continuar criando a menina sozinha, não levo jeito pra coisa. Não importava o que eu fizesse, ela ficava fechada em seu mundo. Percebi o que tinha de fazer.

Por meses tentei entender a magia, mas dessa vez eu pedi ajuda a menina. Contei a ela parte da história. E um dia, conversando com ela sobre o quanto sentia falta da mãe que percebi em partes como funcionava a magia. Me preparei para conjurar novamente e pedi para que ela me abraçasse e segurasse o livro. Foquei meu pensamento na minha mãe e pedi à ela que fizesse o mesmo.

E assim viemos parar aqui mãe….

 

Fim da primeira parte. Continua em outro post…

(Escrito por Cyro Dal Cortivo)

1 Comentário

  1. Very nice!.

    Queria saber a traducao do latim. ;D

    Valeu!

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>